Portal da Igreja do Evangelho Quadrangular

Portal da Igreja do Evangelho Quadrangular

Portal da Igreja do Evangelho Quadrangular

Publicado em 02/12/2016

Atualidades

Agronegócio sente crise e perde empregos, produção e receita

Único setor que cresceu em 2015, agropecuária registrou queda de 1,4% no PIB do terceiro trimestre deste ano, acima da retração de indústria e serviços.

Produtor observa sua safra de soja em Barreiras, no Estado da Bahia.


Se em 2015 o agronegócio ajudou a evitar um tombo ainda maior da economia brasileira, neste ano ele engrossa os dados negativos do PIB. Pela segunda vez em 20 anos, o setor acumula três trimestres seguidos de retração e perdeu vagas de trabalho, influenciado pela queda das produções de culturas como milho, algodão, laranja e cana-de-açúcar.


A agricultura recuou 6,9% no terceiro trimestre de 2016 frente ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o PIB, anunciados nesta quarta-feira (30). Foi o maior tombo para o período desde o início da série histórica do indicador, em 1996.

 

“Em 2016, a gente teve um grande problema: a perda de produção. Não fosse isso, tenho a impressão de que o segmento ficaria no zero, zero e pouco, ou teria uma queda menor. O ‘complicador’ da temporada, além da crise no país, foi a perda de produtividade, principalmente nas safras de soja e milho", explica o consultor de agronegócio Flávio França Junior.


O maior responsável pelo resultado negativo da agricultura foi o clima, de acordo com os especialistas. A área plantada chegou a aumentar, segundo o França Junior. Diante de um clima regular, os efeitos climáticos foram piores. “O ano foi bem fraco mesmo, e não tem jeito, vai fechar no vermelho”, afirma.


Seca devastou hectares do milho
O pequeno agricultor Jocelen Alves, de Ponta Porã, a 326 quilômetros de Campo Grande (MS), perdeu quase tudo que plantou na segunda safra de milho desta temporada. Dos 70 hectares que cultivou, 50 foram atingidos por uma estiagem de mais de 42 dias e os 20 hectares que restaram foram afetados por uma geada.

 

De uma produtividade que ele esperava ser superior a 80 sacas por hectare, colheu apenas 12. “Nunca vivemos um ano tão ruim como este. Nos outros sempre conseguíamos pagar as contas com a lavoura, neste vamos ter que tirar de outro lugar”, diz o produtor.


A história do produtor, que se repetiu em maior ou menor intensidade em todo o Mato Grosso do Sul nesta safrinha e contribuiu para uma quebra de 34% na produção do cereal no estado, de uma projeção de de 9,1 milhões de toneladas para uma colheita de 6 milhões de toneladas, ajuda a entender o porquê dos resultados negativos do cultivo do grão estarem sendo apontados como um dos principais responsáveis pela queda do PIB da agropecuária no terceiro trimestre.


O economista Fabio Ralston, diretor de Commodities na consultoria Parallaxis, aponta a quebra da safrinha como grande “vilã” para que a agropecuária tivesse um resultado negativo de 1,4% no terceiro trimestre deste ano em relação ao trimestre anterior. “A produção de milho safrinha vinha crescendo em todo o país nas temporadas anteriores e em razão das variações do clima provocadas pelo fenômeno El Ninõ sofreu um grande retração. No Centro-Oeste a queda chegou a 36,64%”, explica.


Chuva afetou cultura da cana
Uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar do país, a região de Piracicaba (SP) viu a produção cair 15% este ano, segundo o presidente da cooperativa dos plantadores de cana do estado de São Paulo (Coplacana), Arnaldo Antônio Bortoletto. O principal motivo foi o clima desfavorável à cultura canavieira.

No final do ano passado, choveu muito e nós tivemos que colher com um solo muito úmido, o que refletiu na produção deste ano”, afirmou Bortoletto. A safra costuma começar no fim de março e terminar em dezembro. Este ano, com a baixa produtividade, o término foi antecipado para outubro, o que levou a demissões. “Tivemos que dispensar o pessoal mais cedo e o produtor teve que apertar mais o caixa porque a receita foi menor”, disse Bortoletto.

 

Recessão bateu na porta do agronegócio
Para o diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Cornacchoni, os reflexos da recessão também bateram na porta do agronegócio este ano. “A queda no consumo interno afetou segmentos importantes como a cadeia de carnes e de hortifrúti”, avalia.

Segundo Cornacchoni, nem o cenário mais favorável das exportações ajudou a compensar a demanda mais fraca por produtos da agropecuária. Também a queda acumulada do dólar, de quase 20% no primeiro semestre, reduziu a receita dos exportadores. “Mas este foi um efeito marginal no setor”.


Mercado de trabalho em queda
Com a redução da produção, houve queda do número de trabalhadores no segmento. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), também do IBGE, indica que o agronegócio perdeu mais de 800 mil trabalhadores no ano passado – a maior retração da série histórica.

“Isso tem muito a ver com a mecanização do trabalho, com a substituição da mão de obra, com o setor cada vez mais modernizado e precisando de menos gente”, analisa a gerente do Pnad, Maria Lúcia Vieira.

 

A queda da ocupação atingiu mais fortemente o Nordeste, e esse resultado pode estar relacionado diretamente à seca na região, de acordo com o IBGE. No entanto, a crise da indústria, ainda mais acentuada que a da agricultura, também pode ter influenciado outros setores da economia.


“No momento em que uma indústria fecha no Sudeste, se a produção agrícola voltada para ela é no Nordeste, vai ter uma queda na ocupação da agricultura naquele lugar. A crise na indústria gera um efeito indireto no serviço, na agricultura e em todos os outros agrupamentos”, diz o coordenador de Trabalho e Renda do IBGE, Cimar Azeredo.

 

Segundo relatório mais recente do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, o emprego na agricultura acumula três meses seguidos de queda. Só em setembro – dado mais recente – o setor perdeu 12.508 vagas.


Fechamento de 2016
Diante de tantos números negativos, as perspectivas para o final deste ano seguem pessimistas. De acordo com a última estimativa do IBGE, a safra de cereais, leguminosas e oleaginosas deverá ser 12,3% inferior à obtida em 2015, chegando a 183,9 milhões de toneladas.

O Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária, que corresponde ao faturamento global dentro das propriedades, estimado pelo Ministério da Agricultura em novembro, também indica desempenho inferior ao obtido no ano anterior.

O número deverá chegar a R$ 519,3 bilhões em 2016 – número 2,5% abaixo do que o registrado em 2015. Enquanto o valor referente às lavouras teve queda de 1,9%, o relacionado à pecuária recuou 3,7%.


Perspectivas para 2017
Para o próximo ano, a expectativa é um pouco melhor. De acordo com a avaliação da consultoria França Junior, a safra de grãos deverá chegar a 220 milhões de toneladas, contra 1985 milhões em 2016 e 212 milhões, em 2015.

“Em 2017, temos o fenômeno El Nina, cujos efeitos deverão ficar abaixo da média. Ele está sendo considerado mais brando. Este ano é considerado de fraca intensidade. Devemos ter uma recuperação parcial.”

g1.globo.com