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Publicado em 18/01/2017

Atualidades

A mulher que doa em vida seus órgãos a estranhos

Tracey Jolliffe já doou um rim, 16 óvulos e mais de 45 litros de sangue e, agora, pretende doar parte de seu fígado também.


Após doar um rim, Tracey Jolliffe se dedica a incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo 


Tracey Jolliffe já doou um rim, 16 óvulos e mais de 45 litros de sangue e pretende deixar seu cérebro para ser estudado pela ciência. Agora, também quer doar parte de seu fígado para alguém que não conhece.

"Se tivesse mais um rim extra, o doaria também", disse ela ao programa Victoria Derbyshire, da BBC.

Tracey é uma "doadora altruísta" - como são chamadas na Grã-Bretanha pessoas dispostas a dar um órgão para salvar a vida de um desconhecido.

Ela é microbióloga e trabalha no NHS, o sistema de saúde público britânico. Seus pais eram enfermeiros, e Tracey passou a vida ouvindo sobre a importância da assistência médica sob um ponto de vista profissional.

Mas ela também está determinada a fazer a diferença a nível pessoal. "Eu me registrei como doadora de sangue e de medula quando tinha 18 anos", conta.

Hoje aos 50 anos, ela continua disposta a doar o que pode.

Em 2012, ela foi uma das menos de cem pessoas no Reino Unido a doar um rim sem saber quem o receberia - e, agora, apoia a organização de caridade Give a Kidney (Doe um Rim, em inglês), que incentiva outros a fazerem o mesmo.

Até 30 de setembro de 2016, 5.126 estavam na fila de espera por um rim no NHS, em que o tempo médio de espera é de três a quatro anos.

No Brasil, o número é quase quatro vezes maior: eram 20 mil pessoas, entre adultos e crianças, até março de 2016, que aguardavam um rim, segundo os dados mais recentes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos.

É de longe o órgão mais requisitado. De todos os pacientes à espera por um transplante de órgãos no Brasil, 58,7% aguardam por um rim - enquanto 4,2% precisam de uma doação de fígado, o segundo mais demandado na lista.


'Processo complexo'

Diferentemente da maioria dos transplantes, uma pessoa pode estar viva para doar um rim, porque só precisa de um dos dois existentes para sobreviver.

O rim doado por Tracey provavelmente salvou a vida de uma pessoa. "Eu me lembro disso todo dia quanto acordo", diz ela, orgulhosa.

No entanto, não foi uma decisão impulsiva. Doar um rim é um "processo complexo", diz ela, já que as avaliações das condições do doador levam até três meses para serem feitas.

Isso inclui exames de raio-X, cardíacos e de funcionamento do órgão, por meio de uma série de testes de sangue. "Não é algo que você faz se tem medo de agulhas", ela brinca.

Os riscos associados à doação de rim são baixos se o doador estiver saudável, com uma taxa de mortalidade de uma para cada 3 mil pacientes - o mesmo de remoções de apêndice.

O NHS diz ainda que a maioria dos doadores de rim tem uma expectativa de vida equivalente - ou maior - do que a média geral das pessoas.

Tracey conta ter ficado internada no hospital por cinco dias após a operação e que sua vida "voltou ao normal" após seis semanas.

Segundo a ONG britânica Kidney Research UK, pelo menos 60% das pessoas que recebem um rim podem ter a expectativa de viver em média por mais 15 anos após o transplante.

Além de ter ajudado a salvar vidas - inclusive com os mais 45 litros de sangue que já doou até hoje -, Tracey já doou 16 óvulos, que permitiram a três casais ter filhos.

Foi fácil tomar essa decisão, diz ela. "Não tenho vontade de ter filhos, então, pensei 'Sou saudável, por que não?'."


Regeneração

Agora, ela espera doar parte de seu fígado - e, de novo, para alguém que não conhece. Ela está ciente dos riscos envolvidos. "O perigo é muito maior do que na doação de rim", afirma.

A taxa de mortalidade de uma doação a partir do lóbulo direito do órgão é de uma morte a cada 200 pessoas e, a partir do lóbulo esquerdo, de uma a cada 500.

Mas muitos doadores têm uma vida longa e saúdavel após o transplante, diante da "incrível capacidade de regeneração" do órgão, esclarece Tracey.

Quase imediatamente após a cirurgia, o restante do fígado do doador começa a crescer, um processo conhecido como hipertrofia e que continua por até oito semanas.

Tracey afirma não ter dúvidas de que continuará a doar enquanto puder e espera fazer isso mesmo após morrer. "Eu me registrei para dar meu cérebro para a ciência médica quando partir", diz ela.

Doações de cérebro são efetivadas até 24 horas após a morte de uma pessoa e contribuem para o estudo de males como, por exemplo, a demência.

Mas quais são as razões de Tracey para doar órgãos - seja um cérebro ou um rim?

"É parte da minha natureza, minha oportunidade de fazer algo de bom."


g1.globo.com

Adam Eley e Jo Adnitt, BBC